Para a indústria automotiva brasileira, 2015 começa carregando o legado negativo do ano que passou. Indicativos desse panorama pessimista são observados pela queda nas vendas de automóveis, passam pela piora no cenário macroeconômico e industrial nacional, atingem o desemprego, o aumento da inflação, dos juros ao consumidor e do dólar. Todos esses fatores influenciam direta ou indiretamente o mercado automotivo brasileiro em todas as suas fases.
A expressiva queda de 7,1% nas vendas de carros, comerciais leves e comerciais pesados novos não chegou a ser uma surpresa, pois uma tendência de piora desde o segundo semestre de 2013 já havia sido observada e apontada em diversas oportunidades. A sobrevida que o mercado apresentou naquele ano teve como fundamento a antecipação das vendas ocasionada pela inclusão dos equipamentos de segurança ABS e airbag, obrigatórios desde o início de 2014, e a eliminação parcial do desconto do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Em outras palavras, os números daquele ano já se mostravam mascarados por mecanismos artificiais.
Desde 2002, não observávamos qualquer retração no mercado automotivo nacional. Entretanto, ano passado, os automóveis de passeio tiveram diminuição de 8,1% nos emplacamentos, enquanto os caminhões e ônibus tiveram expressiva queda de 11,5%. Os números seriam certamente ainda piores se não tivéssemos as novas antecipações das vendas nos últimos meses de 2014, dessa vez provocadas pelo retorno do IPI aos patamares originais a partir de janeiro deste ano. Essa habitual e dissimulada alteração dos preços por intermédio da alteração do IPI ocorre por este tributo ser aplicado quase ao final da cadeia de impostos, o que gera impacto quase direto no preço final dos veículos. Em um mercado sensível a preços, como o brasileiro, uma pequena diminuição provoca aumento das vendas. É bem provável que em poucos anos tenhamos, novamente, esse mecanismo para alavancar o comércio de automóveis se a política econômica não mudar.
EXPORTAÇÕES
As exportações, já bem enfraquecidas nos últimos anos, enfrentaram no ano de 2014 elevada queda, atingindo quase 41%. Nas montadoras de veículos atuantes no Brasil, foi comum verificar que áreas internas específicas para esse fim foram fechadas, diminuídas ou agregadas a outras áreas sem grande correspondência funcional; fato que não ocorreu em todas as montadoras, mas foi verificado em algumas oportunidades. A estratégia das vendas destinadas à exportação passou para as mãos das matrizes em algumas empresas, provocando a perda de inteligência e da força na exportação local.
Sofremos hoje de um problema não muito exposto ao público geral. Com o mercado interno extremamente aquecido nos últimos anos, o foco foi atender essa demanda. O dólar também teve sua contribuição, pois elevava o preço do veículo em outros mercados, prejudicando as exportações. Mas, acima de tudo, o problema crônico foi a falta de um produto com a devida qualidade para atender aos mercados europeu e norte-americano. Essa tendência tende a ser revertida com o Inovar-Auto (assertivo programa governamental que prevê veículos com melhor eficiência energética em 2017). Estamos atualmente vivenciando os mesmos efeitos ocorridos na Europa desde 2007, o denominado downsizing, ou seja, desenvolvimento de motores menores que gerem a mesma potência dos maiores e mais antigos. Novos projetos contemplando veículos mais leves, com melhor aerodinâmica e novos sistemas powertrain (motor e câmbio) trarão, em conjunto com a preocupação da segurança, a necessária competitividade que falta aos nossos produtos no exterior.
EFICIÊNCIA ENERGÉTICA
O mercado nacional atualmente vivencia uma revolução com a chegada e lançamento de novos motores. Diversas montadoras instaladas anunciaram novas fábricas ou a ampliação das existentes, visando à melhora da eficiência para a obtenção das metas estabelecidas pelo Inovar-Auto. Empresas que não se preocupavam com a questão da eficiência tiveram de se enquadrar nas novas exigências governamentais e do consumidor, que deseja cada vez mais um carro que polua menos e gaste pouco combustível.
Importante informar que é notória a aproximação de algumas montadoras com os veículos produzidos em escala global e que contam com processos internacionais de manufatura, garantindo assim a qualidade e a segurança do projeto para condutores e passageiros. Mas, infelizmente, ainda é abismal a distância que nos separa com relação aos veículos de entrada.
MEDIDA CONTRA A INADIMPLÊNCIA
E o que esperar de 2015? Não existe como esperar um melhor cenário ainda este ano. As expectativas são de crescimento nulo ou negativo. Considerarmos uma queda de 2,5% não seria nenhum absurdo. O mercado estará melhor apenas em meados de 2016.
A maior esperança do ano, e que poderá ditar os horizontes do mercado, tem fulcro no Poder Judiciário e recebe a denominação de Lei 13.043/2014, que, entre tantas diretrizes, trata da redução do prazo para a retomada do veículo em casos de inadimplência, sem a necessidade de ingresso de ação judicial.
Essa medida era aguardada por todos aqueles que acompanham o segmento automotivo, desde financeiras (maiores interessados), concessionários e montadoras de veículos (estes com vistas às vendas) e pelos especialistas e analistas de mercado.
A diminuição do excesso de procedimentos judiciais para a retomada do bem trará os prazos para essa retomada para algo perto dos três meses – o prazo anterior era de um ano. Esse ganho temporal é importante para a proteção do próprio bem, que, quase sempre, era encontrado em péssimo estado de conservação, impossibilitando assim a venda por valores de mercado.
A diminuição do prazo em conjunto com a maior certeza de retomada do bem em condições satisfatórias impactará na maior facilidade da liberação do crédito ao consumidor que se utiliza dessa condição (a maioria) – e, assim, em maiores vendas. A Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) estima que esse aumento poderá chegar a 30 mil clientes adicionais ao mês somente para o segmento de veículos novos.
VENDAS PARA PESSOAS JURÍDICAS
Com relação ao processo de interiorização das vendas, acreditamos que ainda perdurará ao longo dos próximos anos. Proporcionalmente, observaremos um aumento das vendas nas regiões centro-oeste e nordeste do Brasil. Nessas áreas, incluindo-se a região Norte, que possui mercado pequeno, o potencial de crescimento será maior por existir menos carros por habitante do que nas regiões Sul e Sudeste.
Também é importante considerarmos o crescimento do mercado de vendas diretas, que passou de uma média de 22% das vendas totais cinco anos atrás para quase 30% no último ano. Conhecido por “venda a frotistas” ou “vendas a pessoa jurídica”, essa modalidade apresenta como característica principal a venda em grande volume destinada à pessoa jurídica em sua essência. Existe amplo espaço para crescimento no mercado nacional, principalmente se comparado a Europa e Estados Unidos, onde a atuação no leasing corporativo é grande.
É fato que as vendas diretas são uma modalidade muito interessante para os veículos de volume ou quando os mecanismos comerciais do concessionário não demonstram a força necessária para alavancar as vendas de um determinado modelo ou versão. É comum observarmos veículos que estão prestes a sair do mercado sendo comercializados aos milhares por esse meio. Entretanto, por normalmente possuírem descontos elevados, não garantem de forma eficiente e concreta a rentabilidade da empresa.
Por aqui, ainda é importante observarmos como essa situação impactará o futuro do mercado nacional, haja vista que algumas marcas estão dando grande ênfase a esse tipo de negócio. Nesse contexto, ao adquirir um veículo na rede de concessionários, o consumidor pessoa física paga um montante próximo do valor sugerido pela lista de preços; ou seja, um valor mais elevado do que aquele destinado às vendas diretas. Se, no momento em que desejar vender esse veículo, o consumidor se deparar com o derrame dos veículos proveniente das empresas que adquiriram o mesmo modelo na modalidade de vendas diretas, em função da oferta e procura, o preço do modelo despencará ao ponto do consumidor perder um bom montante financeiro. A situação poderá trazer insatisfação ao consumidor, que poderá deixar de adquirir veículos da marca, perdendo um dos elementos mais importantes no processo de compra: a fidelização à marca.
USADOS
Com o mercado de novos em baixa, existe boa expectativa para o mercado de veículos usados. Desde o ano de 2008, esse mercado sofre com o aumento do crédito ao consumidor para a compra de veículos novos e com os preços artificialmente reduzidos. Pequenas empresas do segmento fecharam, efeito este que vem se revertendo ao longo dos últimos dois anos. Esse mercado, sempre muito maior que o de novos, estará com melhores horizontes em 2015.
Mercado de veículos novos em baixa e mercado de veículos usados com potencial de crescimento trarão diversas oportunidades para o setor de reposição de peças. As autopeças deverão se preparar para suprir o mercado de reposição com os itens e peças destinados aos veículos usados. Saber compreender e conseguir explorar esse mercado, entendendo a dinâmica de cada Estado federativo, sua respectiva frota circulante, possuir informações fidedignas, bem como atuar em distribuição, serão de suma importância para o segmento.
PRODUÇÃO EM 2015
Voltando ao mercado geral, os indicadores da produção industrial nacional divulgados pelo IBGE mostraram queda de 3,1% entre novembro de 2013 e o mesmo mês de 2014. A indústria automotiva e sua contundente queda na produção de 15,3% no ano passado foi uma das que mais contribuíram para a queda dos números nacionais.
Produção e estoque estão intimamente relacionados. Em dezembro último, os estoques totais informados pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) estavam em 28 dias em comparação com 42 dias em novembro. Como a regulação dos estoques não ocorreu por intermédio das vendas, teve de acontecer na outra ponta: na diminuição da produção em função das férias coletivas, antecipação de manutenção de linhas de produção e diminuição dos turnos de trabalho. O ano de 2015 trará números ínfimos relacionados à produção.
VENDAS EM 2015
Ainda sobre os números gerais da indústria, nunca é demais recordarmos que nos últimos dez anos a indústria automotiva brasileira cresceu 104% em vendas, pouco mais de 94% de crescimento para os automóveis, quase 200% para os comerciais leves e 80% para os caminhões e ônibus. Não podemos de forma alguma considerar isso ruim! O ano de 2015 apresentará uma natural acomodação desse mercado.
Essa acomodação, juntamente com a perspectiva de queda apontada anteriormente, trará impacto direto no emprego do setor. Nunca em números absolutos a indústria automotiva brasileira perdeu tantos postos de trabalho (12,4 mil segundo a Anfavea) como ocorreu ano passado. O ano de 2015 será usado para regular os empregos na indústria com há tempos não observamos no Brasil.
As altas taxas de juros no mercado varejista, que é o utilizado quando se financia a compra de um bem material, continuará em 2015 com a finalidade de controle inflacionário e, consequentemente, trarão menores vendas. A inflação continuará alta e o consumidor terá a sensação de perda de seu poder aquisitivo. Gastos desnecessários, como a troca de veículo, serão postergados.
A indústria nacional, em especial a automotiva, tem de se preparar para esses dias piores. A baixa expectativa do mercado, a piora dos principais indicadores econômicos e o momento por que passa o Brasil justificarão a expectativa de um crescimento nulo ou, opinião quase unânime entre os analistas, de queda nas vendas.
Texto: Milad Kalume Neto é gerente de desenvolvimento de negócios da JATO Dynamics.