Hoje superintendente nacional de vendas da Embrase, companhia especializada em segurança e serviços, Marcelo Rutigliano Varella, que foi o primeiro diretor do CESVI, lembra, nesta entrevista, como foram aqueles primeiros anos heroicos do centro de pesquisa – quando um mercado de reparação com oficinas capacitadas ainda parecia enredo de ficção científica.
O que foi mais desafiante naquele começo do CESVI?
Foi praticamente criar uma situação que não existia no Brasil. As oficinas não tinham equipamentos, não tinham processos, não tinham mão de obra treinada. Tudo isso que nós vemos hoje e achamos normal, como mascaramento com papel adequado, soldagem correta, cabine de pintura, plano aspirante, não passava nem perto da cabeça dos donos de oficinas. Tanto que, quando o CESVI foi inaugurado, o pessoal do mercado de reparação dizia que nós éramos a Nasa, porque estávamos mostrando uma realidade mil anos à frente deles.
Que tipo de dificuldade isso causava?
Isso fica muito claro quando pensamos no Baremo. Nós fizemos uma tabela de tempos de reparo para criar um padrão e deixar o orçamento mais técnico, reduzindo o atrito entre as oficinas e as seguradoras. Só que, para praticar esses tempos, a oficina precisa ter profissional treinado, precisa ter processo e ter equipamento adequado. Nós começamos a treinar as reparadoras e, com a nossa consultoria, ensinar processo. Só que não existia equipamento adequado à venda no Brasil – o que é compreensível, lembrando que as oficinas não tinham essa preocupação. Então eu viajava pessoalmente para a Europa e os EUA, para convencer os fabricantes a fazer negócios aqui. E eles achavam que eu estava louco, porque não viam o País como um mercado potencial. Então nós tínhamos de convencer o fabricante de que ele precisava vender, e convencer a oficina de que ela precisava comprar. Tivemos de construir do zero para um dia existir reparo de qualidade no Brasil.
Que balanço você faz daquele período pioneiro?
Acho que o maior legado que eu deixei foi uma mudança de cultura – em tudo o que envolve a relação entre seguradoras, oficinas e montadoras. Criamos uma tabela de tempos, desenvolvemos treinamentos, consultorias, estabelecemos diálogos com entidades e sindicatos, fizemos um trabalho forte de conscientização também. E era muito complexo, porque nós dizíamos para as oficinas que, investindo em qualidade e capacitação, elas seriam procuradas para fazer parte das redes de parceiras das seguradoras. E aí as companhias, muitas vezes, acabavam escolhendo outra oficina sem padrão. E para explicar isso? Então a conscientização foi no sentido das companhias também, de que elas só tinham a ganhar trabalhando com reparadoras capacitadas. Outro legado foi aproximar as seguradoras das montadoras. Porque elas não se falavam. E, sem entender como o carro era produzido, a precificação do seguro tendia à imprecisão. Era por similaridade.
Como surgiu a ideia de criar a Revista CESVI?
Veio dessa própria necessidade de explicar tanta coisa. Em primeiro lugar, eu precisava explicar, para pessoas dos segmentos mais diversos, o que era o CESVI e quais eram nossos objetivos. Em segundo, explicar quais eram nossos produtos e serviços. E finalmente eu tinha de fazer esse trabalho de conscientização. Por isso, optamos por distribuir a revista gratuitamente, já que entendíamos que ela era nossa grande ferramenta de comunicação com os diversos públicos do CESVI. Ela estendeu muito o alcance das nossas informações, além de colocar em discussão temas que nós consideramos relevantes, tanto no que se refere à reparação quanto à segurança viária. Eu recebo a revista, sou leitor e vejo que ela continua com esse papel essencial. Não precisa mais explicar o básico, mas se mantém como um canal de comunicação e discussão muito forte.
Do que você sente saudade daqueles tempos?
Eu lembro com muito carinho dessa coisa de construir todo um cenário do zero, de fazer essa mudança de cultura, de criar produtos e uma marca que permanecem sólidos até hoje. Foi um tempo de muita inovação e muito aprendizado também. Acho que a minha maior satisfação com esse trabalho pioneiro foi ter criado produtos e conceitos que, 17 anos depois da inauguração do CESVI, ainda estão aí. O Baremo está perpetuado por meio do Órion, o CESVI continua fazendo treinamento, continua fazendo consultoria, continua aproximando seguradoras e montadoras, a revista está cada vez melhor… É sinal de que os caminhos que nós imaginamos lá atrás faziam todo o sentido.
TEXTO: Alexandre Carvalho dos Santos