Quando os primeiros carros ganharam as ruas, nos últimos anos do século 19, o mundo mudou. Já era possível ir de um ponto a outro da cidade ou do país sem as inconveniências dos cavalos – animais que têm sede, ficam cansados, às vezes têm reações irracionais e não atendem ao comando de seus condutores… (Ok, você pode responder que os carros, de certa forma, também são assim. Mas experimente cavalgar num dia de chuva e depois repense se automóveis e cavalos são a mesma coisa.) Os cavalos, aliás, estiveram entre as primeiras vítimas da história da violência do trânsito. Assim como árvores e animais domésticos – categoria que na época podia abranger porcos e galinhas, além dos cães e gatos. Ah, e pedestres, claro, as vítimas de sempre.
O fato é que ninguém tinha pensado em fazer um seguro contra acidentes de trânsito enquanto não havia acidentes – nem trânsito, como o entendemos atualmente. A cientista irlandesa Mary Ward é considerada pela maioria dos especialistas como a primeira vítima fatal de um acidente automobilístico. Em 1869, quando aceitou uma carona dos primos, Mary foi arremessada para fora do veículo em uma curva perigosa, e uma das rodas acabou passando em cima da sua cabeça. Sim, isso aconteceu anos antes do alemão Karl Benz construir o primeiro automóvel movido a combustão interna de gasolina, em 1885. Mas o veículo dos primos de Mary era uma versão mais primitiva dos carros, movida a vapor.
Já a inglesa Bridget Driscoll foi a primeira pedestre morta em um atropelamento. Ela estava atravessando a rua, na Londres de 1896, quando sofreu o impacto fatal de um carro “voando baixo” a incríveis 6 km/h, guiado por um motorista sem licença para dirigir. O que não era considerado infração, porque na época essa licença ainda não havia sido inventada. O médico legista que atestou o óbito de Bridget, por ferimentos na cabeça, declarou que essa forma até então inédita de morte parecia uma fatalidade que não se repetiria no futuro: “acredito que esse tipo de bobagem [o atropelamento] nunca acontecerá novamente”.
Para a infelicidade geral, a história desmentiu o médico, e os acidentes automobilísticos se repetem todos os dias, até hoje. Já naquele finzinho de século 19, as colisões contra outros carros, pedestres, árvores e cavalos eram tantas que não demorou para que acendesse a lâmpada sobre a cabeça de alguém, e o primeiro seguro contra acidentes de automóvel fosse inventado. Mérito da inventividade dos americanos: em 1897, Gilbert J. Loomis, cidadão de Ohio, foi o primeiro segurado a ter uma apólice que o indenizaria caso seu carro matasse ou machucasse alguém, ou destruísse propriedade alheia.
Aquela apólice foi o marco zero da história da carteira de automóvel. Mas a trajetória do seguro através dos tempos tem muitas outras curiosidades, como as que você vai conhecer nesta matéria.
ANTES DE CRISTO
O seguro não é uma novidade das sociedades modernas. Os primeiros métodos de transferência ou distribuição de riscos em economias com base monetária datam de milhares de anos antes de Cristo, e aconteceram na China e na Babilônia. Os mercadores chineses tinham o hábito de espalhar seus produtos em diversos barcos, para reduzir a perda caso um deles naufragasse. Na Babilônia, 23 séculos antes que Jesus caminhasse sobre as águas (sem um seguro contra essa atividade perigosa, diga-se), caravanas de cameleiros que cruzavam o deserto dividiam entre si os prejuízos relacionados à morte de animais ao longo da travessia.
E foram os gregos e os romanos que lançaram os seguros de saúde e de vida. Mais ou menos por volta do ano 600 a.C., quando criaram organizações chamadas “sociedades benevolentes”, que cuidavam financeiramente das famílias dos sócios que morriam e pagavam as despesas do funeral.
AS GRANDES NAVEGAÇÕES
Mas foi com a expansão marítima da época do Renascimento que a cobertura de riscos começou a ganhar uma forma parecida com a atual. Operações chamadas de Contrato de Dinheiro e Risco Marítimo passaram a ser comuns: os empréstimos dados aos navegadores que precisavam financiar suas viagens previam uma cobrança maior no caso de sucesso da navegação, e o perdão da dívida caso a embarcação e a carga fossem perdidas. Nessa época, as “seguradoras” eram na verdade pessoas – os patrocinadores das navegações – que assumiam o risco pelas viagens comerciais.
Não demorou muito para que a atividade ganhasse força e credibilidade, até que, em Gênova, no ano de 1347, o primeiro contrato de seguro fosse escrito. A evolução foi tanta, e tão rápida, que as apólices já eram bastante comuns no final do século 14.
A PRIMEIRA COMPANHIA SURGIU DO FOGO
Já no século 17, a atividade se expandiu ainda mais: o que antes incluía exclusivamente “riscos marinhos” se estendeu a coberturas terrestres. Graças, principalmente, ao grande incêndio de Londres, que destruiu cerca de 25% da cidade em 1666, arrasando com mais de 13 mil casas. Foi quando o seguro se transformou de uma questão de conveniência em uma questão de urgência. E acabou levando, um ano depois, à criação da primeira companhia de seguros da história.
Chamava-se The Insurance Office, e ficava num pequeno escritório localizado atrás da Bolsa de Valores de Londres. Curiosamente, a atuação da empresa consistia em ter a própria brigada contra incêndio, que entrava em ação sempre que a residência de um segurado pegava fogo. Imediatamente, surgiram outras empresas de seguros com o mesmo modo de atuação. Porém, esse modelo logo se mostrou um fiasco. Principalmente porque, se a casa incendiada não estivesse no seguro, os bombeiros não mexiam um dedo – ficavam só olhando. Só que incêndio é mais que uma preocupação particular, é um problema que afeta mais que o dono da casa, já que o fogo pode se alastrar no entorno – como aconteceu naquele grande incêndio de Londres. A solução encontrada na época foi municipalizar o corpo de bombeiros. As companhias cederam seus equipamentos para a prefeitura, que também contratou os combatentes do fogo – que então passaram a extinguir incêndios independentemente da residência ter ou não um contrato de seguro. Mas, na eventualidade de haver vários focos de incêndio na mesma hora – coisa comum naqueles tempos –, as seguradas ainda tinham uma vantagem: as companhias pagavam cerveja nos pubs locais para os bombeiros que dessem prioridade a seus clientes.
NOS TRILHOS
A primeira companhia a oferecer seguro contra acidentes de veículos – não exatamente de carro – foi a Railway Passengers Assurance Company, fundada em 1848 na Inglaterra. O objetivo era vender seguro contra o crescente número de fatalidades relacionadas a acidentes de trem. A missão da companhia era “dar garantias sobre as vidas dos passageiros de viagens ferroviárias e garantir, no caso de um acidente que não resulte em morte, uma compensação ao segurado pelos ferimentos provocados na ocasião”.
Visionária, a companhia logo passou a fazer acordos com as empresas ferroviárias, de modo a agregar um pequeno valor de seguro contra acidentes básicos no preço integral das passagens de trem.
OBRIGADO, DOM JOÃO 6º
Por aqui, devemos o começo da atividade securitária à incapacidade de Portugal resistir aos avanços de Napoleão Bonaparte na Península Ibérica. Com a vinda da Família Real Portuguesa e a abertura dos portos, que intensificaram a navegação no Brasil, as viagens marítimas luso-brasileiras precisaram de garantias financeiras. Foi nesse contexto que surgiu a primeira seguradora nacional: a Companhia de Seguros Boa-Fé.
Mas foi com a promulgação do Código Comercial Brasileiro, em 1850, que a atividade se expandiu, incentivando o surgimento de um grande número de companhias, que passaram a operar não apenas com o seguro marítimo, mas também com o terrestre. O setor cresceu tanto nessa época que atraiu o interesse de empresas de seguros estrangeiras. E, em 1862, o Brasil passou a contar com as primeiras sucursais de seguradoras que tinham suas sedes no exterior.
Matéria originalmente publicada na Revista CESVI, out/14.
TEXTO: Alexandre Carvalho dos Santos (editor)