Revista CESVI | Alumínio é o futuro

 

Há uma série de vantagens em produzir automóveis com carroceria de alumínio. Em primeiro lugar, o uso desse material permite uma redução no peso do carro, e veículo mais leve consome menos combustível, emite menos poluentes e tem um desgaste de peças menor.  

Mas e quando o veículo chega à oficina? O mercado reparador brasileiro está preparado para trabalhar no reparo de automóveis com alumínio? Infelizmente, bem menos do que seria desejável.

Devido ao desconhecimento tanto das características desse metal quanto da técnica apropriada para o trabalho, muitas oficinas têm encontrado dificuldades para reparar pequenas avarias no alumínio. E, por não saber como reparar, acabam optando pela substituição. Essa troca desnecessária da peça aumenta o custo do reparo, impactando a companhia de seguros.

Outro ganho dessa opção – pensando tanto em meio ambiente quanto em economia – é que o alumínio pode ser reciclado infinitamente. Um estudo realizado pelo Centro para Recuperação e Reciclagem de Recursos do Instituto Politécnico de Worcester (WPI), em Massachusetts, nos Estados Unidos, constatou que 91% do alumínio presente nos automóveis descartados naquele país é reciclado – esse metal entra em um novo ciclo de vida, na forma de rodas, para-choques e motores. De acordo com a Associação Brasileira do Alumínio (Abal), nosso país também tem um grande potencial para o aumento no reaproveitamento do alumínio proveniente dos carros. Afinal, já somos campeões de reutilização quando esse metal vem de outras fontes: o índice de reciclagem de latinhas de bebida, por exemplo, chega a 98%, contribuindo para que o alumínio seja o principal produto reciclado no Brasil, com 602 mil toneladas só em 2015 (o último levantamento disponível).

ELES ESTÃO CHEGANDO

Mas e quando o veículo chega à oficina? O mercado reparador brasileiro está preparado para trabalhar no reparo de automóveis com alumínio? Infelizmente, bem menos do que seria desejável.

Devido ao desconhecimento tanto das características desse metal quanto da técnica apropriada para o trabalho, muitas oficinas têm encontrado dificuldades para reparar pequenas avarias no alumínio. E, por não saber como reparar, acabam optando pela substituição. Essa troca desnecessária da peça aumenta o custo do reparo, impactando a companhia de seguros.

Por enquanto, o uso do alumínio nas carrocerias é mais frequente entre veículos de maior valor de mercado. Mas esse cenário está prestes a se transformar. Nos EUA, a Ford mudou, do aço para o alumínio, a carroceria do seu veículo mais vendido, a picape F-150 – líder de vendas durante mais de 30 anos. Com isso, a fabricante obteve uma redução de peso do modelo de mais de 300 quilos – entre 15% e 20% a menos que o peso original. E é aquilo que dissemos no começo: veículo mais leve tem maior eficiência energética.

A adoção do alumínio em um dos veículos mais vendidos dos EUA deve servir de alerta para as oficinas e seguradoras do Brasil: cada vez mais, teremos automóveis de alumínio chegando às reparadoras. Então já é hora de termos esclarecidas as principais dúvidas dos profissionais quanto a esse tipo de reparo. Por exemplo: é possível reparar peças de alumínio de modo semelhante ao que é feito com as de aço? A resposta é sim, mas o alumínio tem suas peculiaridades na hora do conserto. O processo é mais complexo e exige maior cuidado do reparador – até porque está lidando com peças de custo maior que o aço.

Justamente para dirimir as dúvidas relacionadas a essas particularidades, e para que seus veículos não fiquem sem o reparo adequado, algumas montadoras têm promovido, para suas redes de concessionárias, cursos de especialização em práticas de reparo em alumínio (principalmente solda). Por enquanto, esses cursos são realizados, em sua maioria, fora do Brasil. Já os treinamentos para oficinas independentes ainda estão em fase inicial, mas a tendência é de crescimento – em função da demanda, cada vez maior.

PARTICULARIDADES DO REPARO

Quais as principais diferenças no reparo do alumínio em relação ao aço? De cara, o alumínio oferece uma resistência maior à corrosão e, quando estampado, tem uma dureza maior (essa característica pode ser sentida, principalmente, no trabalho com martelinho de ouro).

E há outras diferenças. Quando as chapas de alumínio são desbastadas com esmerilhadeira, não soltam fagulhas, e por isso o reparador não tem uma noção exata se está desbastando material em excesso – o que exige mais do conhecimento do funileiro. Além disso, por ter uma condutividade elétrica mais alta que o aço, o alumínio não pode ser trabalhado com as repuxadeiras convencionais. Aliás, as ferramentas que a oficina costuma usar para o reparo do aço não podem, posteriormente, ser usadas no alumínio, já que isso pode provocar contaminação da peça.

A soldagem do alumínio é mais complexa, e esse metal, muitas vezes, é reparado com adesivo estrutural, o que demanda treinamento maior do operador. Na substituição parcial, é comum o uso de rebites especiais para alumínio – além do adesivo estrutural. E aqui vale lembrar: desenvolvidos para substituir a solda convencional em algumas aplicações, os adesivos estruturais têm como componente principal o poliuretano, ou epóxi, promovendo uma boa adesão às áreas que precisam ser coladas.

EQUIPAMENTOS

Confira a seguir quais são os principais equipamentos que uma oficina precisa ter para fazer o reparo em peças de alumínio.

– Solda MIG: uma solda para alumínio que usa um gás inerte como proteção da soldagem (o gás mais comum para essa solda é o argônio). A solda MIG implica uma atenção maior na limpeza da área a ser soldada e uma habilidade maior do soldador.

– Repuxadeira de solda de descarga capacitiva: repuxadeiras convencionais não funcionam com o alumínio. Esta repuxadeira para alumínio faz a soldagem de pinos por meio de descarga capacitiva, o que faz com que o amassado seja repuxado por esses pinos.

– Aplicador especial de rebites: a substituição parcial é feita com rebites específicos para alumínio, que necessitam de aplicadores especiais.

– Aplicadores de cola: os adesivos estruturais têm de ser homogeneizados corretamente para ter a resistência adequada, e por isso precisam de aplicadores específicos.

– Ferramentas manuais separadas: as ferramentas manuais utilizadas no reparo em chapas de alumínio são do mesmo tipo das usadas nas peças de aço. Porém, não devem ser as mesmas para que não ocorra contaminação. Quando a oficina trabalha com alumínio, deve ter ferramentas manuais exclusivas, separadas, para o reparo nesse metal.

– Pintura: recomenda-se o uso de uma massa com carga de alumínio para a preparação da superfície.

 

O BÁSICO PARA TRABALHAR COM ALUMÍNIO

Para avaliar se uma oficina está capacitada para fazer reparo de qualidade em carrocerias de alumínio, as companhias de seguros devem avaliar os seguintes fatores:

– Os profissionais foram treinados para esse tipo de processo?

– Há todo um conjunto de equipamentos e insumos adequados para o reparo de alumínio?

– A infraestrutura da oficina é adequada?

A seguradora também pode incentivar suas oficinas parceiras a procurar treinamento e adequação da estrutura para o trabalho com alumínio. Afinal, a reparadora não vai querer que os veículos produzidos com esse metal sejam encaminhados sempre para a concorrência. E, mais do que nunca, o alumínio é uma tendência de um futuro cada vez mais presente, que não pode ser ignorada.

TEXTO: Misael Santos

Matéria originalmente publicada na Revista CESVI.

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